Escolas e pais devem levar em consideração a humanidade e não somente o indivíduo 

Não queremos que nossos filhos respeitem mais a Tecnologia do que a autoridade de pais, escola, avós ou outros adultos a que tenham vínculo afetivo. A modernidade é hoje um dos maiores desafios para o ato de educar. O grande segredo está na moral, que pode significar mais que o próprio aprendizado e sim, superar a modernidade. É assim que a autoridade passa também a ser respeitada. Entrevistamos a pedagoga e fonoaudióloga, Cristina Borelli, que apresenta uma visão bastante interessante e diferenciada sobre o tema. Ela realiza palestras nos próximos dias 21 e 25, na Casa Aurum, em Campinas.

 

 

O Essencial  Educar hoje em dia para a Liberdade,é possível?

Cris Borelli –  Sim, educar para a Liberdade é possível se tomarmos consciência de que a educação é o ensino na Modernidade,devem transformar-se de um fato natural que interfere no ser humano, num fato de natureza moral.A Escola precisa tornar-se uma Escola para a Humanidade.

O Essencial Existe uma faixa etária para a qual estas suas palestras e orientações seriam destinadas? Ou isso deve acontecer durante toda uma vida, enquanto pais e filhos ainda não adultos?

Cris Borelli – Um dos principais mentores da Medicina Antroposófica, linha de aprendizado e pensamento da palestrante, pergunta se a Liberdade sempre existiu ao longo da Evolução Humana? Através deste questionamento, Rudolf Steiner, nos lança o convite ao aprofundamento na questão da Evolução na Educação ao longo da Evolução Humana, em especial, do ponto de vista das questões internas que mobilizaram e mobilizam o Ser Humano. Educar para a Liberdade abrange a faixa etária dos primeiros 21 anos de vida, porém por excelência, no segundo setênio (fases da vida) o anseio pela Liberdade será contemplado pela Educação. Dos 07 aos 14 anos, ao fazermos com que a criança assimile, o que mais tarde, ao chegar à consciência humana, possa recordar contemplando com satisfação interior o que tiver sido cultivado nela, por nós pais, professores e educadores, aprovando esta nossa atuação, teremos educado para a Liberdade.

O Essencial Quais os principais desafios enfrentados pelos pais no Educar com Liberdade hoje em dia? Computador, games, falta de respeito ou autoridade?

Cris Borelli O principal desafio se apresenta, a meu ver, quando os pais confundem o ato de Educar para a Liberdade como um ato a ser dirigido à toda a Humanidade, com o ato de Educar visando a Liberdade somente do próprio filho, o que na verdade deseduca e, nada tem a ver com Liberdade.

O Essencial – Quando estes pais começam a impor limites, geralmente, os filhos não gostam.É por isso que você abordará também o tema Autoridade Amada?

Cris Borelli – Sim, este é um dos motivos. Na Modernidade pecamos pelo excesso de proteção aos filhos acreditando que poderão ser livres se forem poupados das frustrações e este pensamento é catastrófico.

O Essencial – Como fica a Autoridade Amada como, por exemplo, com os avós,que geralmente por serem mais velhos,não passam a ser tanto respeitados por conta de não dominarem a tecnologia atual?

Cris Borelli – Aqui,precisamos nos questionar com serenidade sobre o que fazemos na Modernidade a ponto de nos depararmos com situações em que a Autoridade não é reconhecida e muito menos respeitada, dentro de nossas próprias casas? Se os avós,pais e demais adultos não são reconhecidos como Autoridades por não dominarem a tecnologia atual, a quem nossos filhos então respeitam? Os games,os computadores, o laptop estão ocupando o nosso lugar como autoridades? Será que entregando nossos filhos desde cedo à Tecnologia conseguiremos garantir que eles se tornem seres humanos livres para buscarem seus propósitos na Vida?

O Essencial – Quais são suas principais dicas e sugestões/conselhos além do que aqueles que já sabemos? Como aplicá-los no dia a dia?

Cris Borelli – Primeiramente cabe esclarecer que vivemos numa época onde o que até há pouco tempo julgávamos saber em relação à Educação, se perdeu. Hoje, tudo é questionável e por um lado, é bom que assim seja. Por outro lado abandonamos o bom senso de forma preocupante e dramática. Assim sendo, convido todos nós a nos tornarmos protagonistas da Educação que desejamos embasados não em ideias rasas e sim, questionando como educar para a Humanidade.

Penso que este é um bom parâmetro para o dia-a-dia. Atitudes como ceder o lugar no ônibus à idosos, a mulheres grávidas, respeitar as regras de trânsito dirigindo com prudência, não permitir que nossos filhos entrem em locais não destinados a eles e enfim exercitando nossa capacidade e necessidade de dizer a palavra não, tomar uma atitude claramente necessária do ponto de vista humano ainda que o receio de traumatizar nossos filhos esteja presente, são algumas das atitudes que me parecem simples e óbvias para que a liberdade de todos seja respeitada. Essas atitudes parecem ser clichês porém, hoje raramente as vemos sendo assumidas por adultos. Estas atitudes simples demonstram o que de fato nos move como seres humanos.

O Essencial – O que muda nestas aplicações junto aos seus conceitos diferenciados de pensamentos e trabalho?

Cris Borelli – O que muda é a maneira de conceber a Educação em casa e na escola. Um exemplo seria o fato de não alfabetizarmos no Jardim da Infância. Outro, é o não uso de livros didáticos. Um terceiro exemplo é que o currículo nasce para atender ao desenvolvimento humano nos âmbitos físicos, anímicos e espirituais. E para mim a mudança maior é o que mobiliza a necessidade de auto educação do professor e dos pais: competitividade, mercado de trabalho, passar no vestibular, ser doutorado na Universidade ou ser um ser humano que escolhe em liberdade os propósitos a que deseja atender. Esclareço que isto não significa que sejamos contrários ao ensino superior ou ao mercado de trabalho por exemplo,mas questionamos sim à quem tudo isto serve da forma como se coloca hoje na atualidade.

Cristina Borelli – Experiência na atuação terapêutica desde 1991. Experiência na atuação terapêutica ampliada pela Antroposofia desde 1999, quando foi Fundadora de uma iniciativa de Pedagogia Curativa e Terapia Social em Campinas. Atuou com trabalho terapêutico atuando como Pedagoga Curativa na Clínica de Neurodiagnose & Neuroterapêutica, em Jundiaí (SP). Atuou junto a Escolas Waldorf  desenvolvendo um trabalho pedagógico terapêutico. Em 2015 foi co-fundadora do Núcleo de Educação Terapêutica e Terapia Social “Ita Wegman” de Campinas, onde atuou até Outubro de 2017. Atualmente, é tutora da Educação Infantil na Escola Waldorf  “EcoAra”, em Valinhos e Orientadora e Capacitadora de Inclusão nesta mesma Escola e na Escola Waldorf  “Angelim” em Jundiaí.